Tem certos momentos, acontecem com pouca frequência, se tornam mais raros com o passar do tempo, mas ainda assim se fazem presente, durante a noite, quando o silêncio toma seu lugar e preenche todo o espaço, eu sinto saudade, uma saudade profunda, como quem rasga á faca o peito e deixa a ferida aberta, exposta, dolorida. Com o tempo ele cicatriza e torna a se abrir, como seu eu não pudesse me esquecer, e não posso. Às vezes não dói, vem em forma de algodão doce e sorrisos, ou então pelo vento do fim de tarde no outono. Mas vem, chega e penetra fundo no coração, eu fecho os olhos, não vejo nada, e de repente lá está. A saudade tem seu rosto, tem seu cheiro e seu cabelo bagunçado, ela fala como você, pisca como você, me envolve em seus braços macios, do jeito que costumava fazer. Eu não mando ela ir embora, tenho medo de te perder, de te arrancar de dentro de mim e no fim não sobreviver, não sobrar nada e simplesmente viver vazia.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
domingo, 8 de novembro de 2015
Foi a primeira vez que eu te vi, foi aleatório e
eu tive a certeza de que nunca mais veria, qual a chance de se viver numa
cidade grande e se esbarrar com a mesma pessoa sem ao menos conhecê-la, no
centro da cidade, atravessando um sinal no horário de pico, zero. Houve um
tempo em que eu acreditava na força do universo, agora já não sei mais no que
acredito, mas alguma coisa aconteceu, nos poucos instantes em que nossos
olhares se cruzaram. Eu não sei se te vi dando um sorriso de canto de boca, não
lembro bem qual era minha expressão, acho que nenhuma. Aquele dia choveu
durante a noite, eu gosto muito de noites chuvosas, fico horas olhando pela
janela do quarto, imaginando a vida lá fora, as luzes da cidade, as poças de
água, o cheiro de molhado. Certamente o destino ou o universo nem se dará conta
da conexão que foi estabelecida entre nós, dos segundos em que estivemos
unidos. Eu atravessei o mesmo sinal, com atenção, naquele mesmo horário,
durante uma semana, agora acredito que não seja assim que as coisas funcionem.
Aos poucos eu me esqueço do seu rosto, dos seus olhos e do possível sorriso de
canto de boca. Peguei-me pensando na chuva, na forma como adormeci na cadeira,
corpo torto, luz acesa. Acordei do meu sonho, sem saber o que não foi real, eu
me lembro da chuva gostosa, talvez devesse sair qualquer dia desses, na noite
chuvosa, tomar um vinho, ver a cidade, sentir seu cheiro. Às vezes me lembro de
um rosto, não sei bem, andava no frio, as seis de um dia de inverno nublado,
naquele horário de pico e semáforos acesos.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Neste
momento, sentado em minha escrivaninha velha, num apartamento igualmente velho
e vazio, numa cidade fria, úmida e cheirando a mofo, divagando sobre a vida
desgraçadamente cômica que me permiti hora ser protagonista, hora ser
observador, em meio a uma epifania pretensiosamente imbecil me permiti concluir
certas observações que já estavam por me assombrar tempos atrás. A vida parece
um clichê repetitivo, um ciclo vicioso do qual nos submetemos com a falsa
esperança de que um dia quebraremos com os costumes que nos cercam e então
domaremos o nosso próprio destino e seremos capazes de construir algo diferente
dos demais. O que acontece de fato quando se chega numa certa idade é perceber
que nada mudou, que o tal clichê é decepcionantemente o enredo da nossa vida de
que não podemos fugir e que tentar romper com qualquer tipo de contrato social
que seja, te torna amargo, rabugento e só funciona quando se trata de romances
baratos de bancas de jornal. Eu sei bem disso, durante quarenta e alguns anos
da minha vida, acentuada pela barba mal aparada e agora grisalha, eu vivi
sonhando com o dia em que sairia desse massacre da vida cotidiana e me
libertaria da cadeia alimentar social. Pois bem, cá estou, caminhando para o
auge da meia-idade, com uma carreira jornalística frustrada e medíocre numa
cidade grande onde todos parecem solitários, cujos ideais políticos libertários
já desapareceram, junto com dois casamentos e filhos que não vi crescer. Mais
um clichê incontrolável ao qual me submeti forçadamente foi o de afogar minhas
mágoas na bebida, o que me deixa menos queixoso é que como um bom jornalista
que se presa, na minha idade, me encaixo no perfil costumeiro pelo qual
orgulhosamente lutei muito, só pelo status de estar no fundo do poço.
Diferentemente das profissões sérias, embebedar-me todos os dias e matar meus
pulmões enquanto como um cigarro atrás do outro é completamente aceitável,
quase aplaudível, como se fosse um pré-requisito para jornalistas quarentões,
quando não é isso, sou obrigado a enfrentar um trânsito do cão, bater cartão e
sentar numa sala onde nem mesmo sei como se desliga o maldito do
ar-condicionado, finjo que trabalho, às vezes até trabalho, não que eu não
goste do meu emprego, ela paga minhas contas, da casa, do bar, do motel e do
puteiro, ele é ótimo, não dá pra reclamar. Fora a estupidez generalizada que me
tira do sério, os pseudo cults e os investidores burros, não posso ser
completamente hipócrita, estou aqui, com o traseiro pregado na cadeira acolchoada,
reclamando da vida ridícula que tenho, bebendo feito um louco e prosseguindo
com a tentativa de ter um câncer no pulmão, eu não vou fazer algo pra mudar,
não nessa altura da vida, é mais fácil reclamar, sonhar ou praguejar sobre o
que já existe, mas isso é um segredo que guardo, no qual volto todas as noites
como se fosse um refúgio, enquanto olho pela janela, a paisagem cinza que me
cerca.
Querida Jane, eu não tenho mais tempo, mesmo que os dias continuem tendo vinte e quatro horas e a semana sete dias. Eu continuo intacta, se é o que quer saber, só não procure dentro das gavetas, elas continuam bagunçadas, mas é normal, nunca consegui arrumá-las mesmo. Essa semana eu errei o caminho de casa, fiquei dando voltas, me perdi por um bom tempo e ainda não sei como cheguei direito, acho que choveu de noite e em várias outras partes do dia, quase choveu quando não podia. O espelho quebrou, é, perdi a conta do azar, as caixas na sala, estão lá, esperando que eu faça alguma coisa, mas eu não caibo nelas, eu tentei, foi ruim e eu me senti triste por isso. Acho que o inverno chegou, dentro de casa eu sinto o coração batendo quente, a pulsação na ponta dos dedos, na rua, o vento gelado endurece meus membros e me faz tremer. Percebi que caça-palavras é uma maldição, eu perco a cabeça e rasgo o jornal, sem antes ter lido a notícia na página de trás. Comprei a passagem pra casa, só ida, convencional, espero ser suficiente, espero. As gêmeas vieram me visitar, eu fiquei no meio, servi suco e observei elas discutindo, sem tomar partido, claro. Peguei meu casaco, tomei um café, paguei as contas, fiz as compras, li e fui dormir.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
O movimento é constante na cidade cinza, o sol se move sobre o cinza, o céu estático também se move. Os prédios se movem para cima, os elevadores dos edifícios se movem, para cima e para baixo. Os carros se movem entre as mãos, as contra mãos e sob as mãos, enquanto as avenidas e ruas se movem aos nossos olhos quando nos movemos sobre elas. Os olhos se movem no meio de cinzas, brancos, pretos e pardos, e se movem mesmo fechados. O corpo se move, dança e contempla, é movido, provocado, empurrado de encontro ao movimento, de encontro às massas, de cara no asfalto. Os pés da bailarina se movimentam no cinza da cidade, flutuam no cinza do céu nublado, no cinza da fuligem dos carros, do coração amargurado, dos olhos cegos de ver o cinza.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Minha querida Jane, agora tudo faz sentido, eu não sei o que te dizer...
Chovia e enquanto a multidão se esbarrava, passava apressada entre carros e ônibus eu entendi tudo o que você queria me dizer. Deus do céu! Como está tudo tão claro, eu me sinto envergonhado, eu não pude ver, mas agora eu sei qual era o problema. Se eu soubesse antes, eu diria para ser um pouco egoísta, mas agora só posso dizer para pegar os cacos no chão e levantar. Eu não quero me afastar, mas não posso suportar te magoar. Pode chorar se quiser, eu posso te abraçar se não se importar. Eu sei que está aí Jane, talvez você tenha medo de me contar os seus pesadelos, eu sei que está aí, eu sinto a sua dor ou o que quer que seja isso aí no peito. Não sei se esse é o melhor caminho, não sei qual o caminho, mas você está no seu, continue, corra se quiser. Me desculpe Jane por ter sido cego, por esta pedra ou invés de flores, eu não percebi que era você, esse tempo todo, na montanha russa. Eu vou ficar aqui mais um pouco, debaixo da chuva, no caminho contrário.
Vá lutar, fique bem.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Todos os dias eu sento em frente
ao computador, abro um documento e me ponho a escrever, geralmente acompanhada
de um vinho, um café ou um chá com mel. A primeira linha chega a ser aceitável, na
segunda eu já me perdi e a terceira eu não me atrevo a começar. Eu estou
vivendo a minha própria seca literária, ou uma retaliação pessoal quanto aos
temas que me proponho a escrever. Estou em meio à paz e ao caos, traumatizada
por ser interpretada de forma errada ou colocada no lugar dos meus personagens,
ou mesmo confusa pelo turbilhão de sentimentos que me atacam e me fazem pular
de um assunto para outro. Espero sinceramente que depois desse "desabafo" eu
consiga escrever, uma linha que seja, sem a nuvem de bloqueio que me ronda ou a
estupidez que me faz desistir.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
E é quando a minha sensatez é
engolida pelo imediatismo de minhas palavras sobre coisas que eu não quis dizer
-sem querer, ou não- atropelando o tempo e quando eu viro os olhos e mordo os
lábios, emudeço a voz (não o pensamento) e eu cheiro livros velhos e anoiteço
ao clarear do dia, é quando você está por perto e me toca com carinho os
ombros, ainda guardo no pensamento a vida que vivemos -nos meus sonhos?- depois daquelas três palavras ditas -malditas-.
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