sábado, 27 de dezembro de 2014

Era verão, e numa fração de segundos desperta pelo "nada", ou melhor dizendo o contrário, completamente imersa em meus pensamentos, eu comecei a me perguntar mentalmente se naquele lugar não seria sempre verão, o sol era sempre muito forte, o vento era um sopro quente e abafado, era possível queimar-se na sombra e qualquer ar-condicionado era insuficiente. Mas logo o calor foi esquecido, e então eu me lembrei porque estava ali, tornei a esquecer, nunca fui fã de assuntos sérios e de coisas sem graça, já estava velha para me preocupar com tão pouco. Passei a tarde ali, apoiada naquela janela de hotel, vendo a menina bonita em seu vestido amarelo florido beijar na boca o moço no cais do porto, eu imaginava que talvez ele chegasse de uma longa viagem, pelo ardor dos beijos e abraços havia ficado muito tempo longe da amada. Pensei comigo que daria uma linda história de amor se não fosse clichê, simples e contada por uma velha. Transportei-me para o passado, eu conseguia me lembrar dessa mesma paisagem, com menos prédios, carros e turistas, quanto tempo se passou...
Naquela época amar era uma coisa importante, tinha um valor imenso, e acreditava-se que era a razão pela qual o ser humano vivia. Não se tinha vergonha por estar apaixonado ou demonstrar sentimentos, pessoas mandavam flores, escreviam cartas e faziam serenatas, mas o tempo passou, até para o amor.
A vida naquele lugar era simples e o verão era eterno, meu pai trabalhava no porto, tínhamos um barco, ele e meu irmão eram pescadores, eu e minha mãe cuidávamos da casa, fazíamos redes e ela me deixava ir à escola, o que era raro na época, quase não se via filhas de pescadores frequentando a escola, mas meus pais acreditavam que assim eu teria melhores oportunidades, poderia ter um futuro melhor, infelizmente o negócio do peixe já não era como antes, os homens saiam de casa com esperança e voltavam de redes vazias.
Eu frequentava as aulas pela manhã num colégio de freiras, graças a uma tia eu não precisava pagar a mensalidade e eu trabalhava na secretaria para pagar meus materiais, aquilo era meu pedaço de paraíso na terra, não conseguia imaginar minha vida fora daquele lugar, eu amava ler, escrever, ouvir os saraus de poesias, os concertos da orquestra, era tudo um sonho.
Então eu aprendi a amar, eu via o amor nos livros, as palavras desenhavam o rosto do amado no meu coração, as canções de amor embalavam meus sonhos mais bonitos e assim eu passava meus dias imaginando quando minha hora de partilhar meu amor com alguém chegaria.
Não tardou muito e eu me apaixonei, louca e perdidamente, já havia bebido da fonte do amor, estava anestesiada por tudo que tinha lido e ouvido, todos aqueles contos, poemas, canções; eu estava feliz. O rapaz também era filho de pescador e assim como meu irmão, ajudava o pai nas viagens e não tinha tempo de estudar. Ele não conhecia as palavras, o mundo dos livros, os romances, mas conhecia o amor pude ver em seus olhos, na primeira vez que o vi.
Nossas famílias se tornaram amigas por causa do peixe, e logo nos tornamos amigos também e quando ele não estava no mar podíamos conversar, ele me contava sobre os perigos da vida na pesca e eu lhe contava sobre as belezas que lia nos livros. Algum tempo se passou até ele tomar coragem e me contar sobre seus sentimentos, disse que infelizmente não poderia me dar um futuro farto e cheio de riquezas, mas que me amava mais que tudo e que queria cuidar de mim, eu chorei de alegria, não eram palavras chiques ou frases rimadas, mas eram reais, eram de coração e eram lindas. No mesmo dia ele pediu permissão ao meu pai para que pudéssemos namorar e prometeu que trabalharia duro para que pudéssemos nos casar. Meu pai mesmo sendo um homem bravo consentiu o namoro, ele sabia que eu amava aquele filho de pescador, sabia que eu olhava aquele rapaz assim como ele olhava minha mãe, havia ternura, ele sabia.
Passaram-se dois anos, e esses com certeza foram os dois anos mais felizes da minha vida, estávamos noivos, nos casaríamos em breve, eu sonhava com este dia, eu contava as horas para que chegasse, eu esperava ansiosa a cada volta do mar, e derramava lágrimas cada vez que ele tinha que partir e foi numa dessas partidas, numa tempestade monstruosa que o mar o tirou de mim, o arrancou dos meus abraços e dos meus sonhos e eu tive vontade de ir atrás dele, por dias esperei que ele voltasse, que ele tivesse conseguido se safar desse desastre, mas ele nunca mais apareceu, eu gritei com o mar, eu amaldiçoei cada tempestade, cada onda e cada gota de água, eu quis morrer, porque a vida não fazia mais sentido, porque tudo havia sido destruído e de mim só restara a carcaça.
Meus pais me mandaram para morar com uma tia, num lugar longe do mar, diziam que eu iria melhorar, que o tempo me ajudaria a esquecer, mas eu não queria esquecer, lutei para ficar, porém, no fundo sabia que deveria partir. Depois de algumas semanas em luto ainda chorando a morte do meu amor, eu fui levada daquele lugar, comigo levava lembranças e uma grande dor no coração.
Morei muitos anos com minha tia, lá pude estudar, me ocupava com várias tarefas, ajudava minhas primas mais novas com os estudos, afazeres da casa, tinha aulas de piano, e com o tempo a dor diminuiu, eu ainda chorava durante a noite, antes de dormir, mas era um segredo meu, uma parte do passado que eu guardava só pra mim. Passados alguns anos, eu me casei, tive filhos, netos, construí um lar, vivi uma vida tranquila e confortável, nunca mais voltei à minha cidade natal, enterrei o passado, me permiti ser feliz do jeito que desse, com o que tivesse sobrado de mim, nunca amei de novo, não daquela forma, intensa e pura, mas encontrei alguém com quem pude compartilhar as alegrias da vida, da família, alguém que com o tempo aprendi a amar e ao seu lado envelheci e estive até o fim de seus dias.

Agora depois de décadas estou de volta ao lugar que nasci e cresci, lugar que vivi os melhores e piores momentos da minha vida, onde me apaixonei e perdi minha metade, neste momento olhando o porto eu sinto que cumpri meu papel nessa existência, que fiz meu dever e agora posso descansar, que meus fantasmas fiquem pra trás, que eu seja livre, que em algum lugar eu encontre novamente o meu amor e que possamos viver o resto da eternidade juntos.
Olá, meu nome é Emma, tenho 25 anos e sou viciada, sim, eu sou uma viciada em fracassos amorosos. Sou uma experiência humana totalmente trágica no que diz respeito ao coração. Não ao órgão em si, esse vai muito bem, funciona direitinho, tem batimentos regulares, o sangue é bombeado sem qualquer alteração, nenhum antecedente cardiopata, essas coisas. Já o amor, ah o amor, esse sofreu um derrame e ficou derramado por aí e pelo visto não tem cura. Acabei chegando à conclusão de que se apaixonar não é pra qualquer um, é sério, isso é trabalho para profissional e se arriscar nessa área é contraindicado, além de ser extremamente perigoso e nocivo.
Voltando ao meu caso grave e, diga-se de passagem, um tanto quanto suicida de distribuição incorreta de sentimentos que por sua vez não são retribuídos, é um caso realmente sério, não sei nem se é por falta de sorte no amor ou se é o dedo podre mesmo. No início é como qualquer relacionamento, saudável e promissor, de repente eu me vejo numa cilada (de novo), deve ser alguma intervenção de seres sem coração ou tão amargos quanto chá de boldo e lá vou eu, passar pelo dessabor do pé na bunda, da descoberta de uma segunda namorada, das crises de ciúmes descabidas, da melação e assim vai, a lista é gigante e bem diversificada, chega a ser cômico (e um pouco apavorante), sendo assim eu resolvi que só apresento pros amigos depois de três meses, pra família só depois do sexto. Enquanto isso minhas ex-colegas de faculdade, minhas vizinhas e minhas primas, todas se casando, tendo filhos, abrindo mão da viagem de fim de ano pra comprar uma geladeira pra casa nova e eu aqui, colecionando relacionamentos mal sucedidos.
Ultimamente tenho cogitado a ideia do celibato ou de namorar à distancia e ter um relacionamento aberto, tô tentando até medicina alternativa pra ver se essa maldição sai um pouco, mas assim como qualquer outro viciado em reabilitação ou a procura de um milagre, eu vou viver cada dia (o mais distante possível de qualquer envolvimento afetivo), longe dos sites que encontram o par perfeito, obedecendo todas as regras de não cair em tentação -amém-, frequentando as reuniões dos "sem amor próprio anônimos", do terreiro, do MST, do caramba à quatro e do que mais for preciso.

Obrigada.

domingo, 21 de dezembro de 2014

De repente você olha para o lado e se vê completamente submersa nas coisas que resolveu "fazer daqui a pouco" e que na verdade não fez hora nenhuma. Ao meu redor existe um ano que trabalhos abandonados, engavetados, desanimados e desmotivados, isso não é legal, não mesmo, pode acreditar (conhecimento de causa).
Teste num dia de sol lá fora, num fim de semana agradável, organizar um ano de vida congelada, um ano de coisas que ficaram pra amanhã (e esse amanhã nunca chegou). Num primeiro instante dá vontade de sair correndo, aí você para e respira, então deseja que a vida seja um computador e que você possa simplesmente formatar sem nem mesmo fazer o backup (como isso seria maravilhoso), só que você não pode fazer isso, até porque no meio dessa bagunça existem coisas que não são só suas, pois sempre tem alguém envolvido (mesmo que seja aquela sua tia distante pra quem você prometeu mandar as fotos do natal -passado-), só pra complicar as coisas.
Teste (já é o segundo) organizar as coisas físicas primeiro, jogue fora aquele monte de papel velho que você guardou achando que ia precisar (sabendo no fundo que nunca mais iria mexer), separe os livros, aponte os lápis, mas pode ser que isso também não dê certo, às vezes você para em frente sua máquina de escrever e percebe que ela não tem o número 1 e fica ali por horas tentando lembrar o porquê a bendita não tem o tal 1 e se algum dia ela já teve (por que raios eu só fui perceber isso agora?!).
Daí você resolve ir tomar banho (depois da odisseia inteira), carambolas, por que não pensou nisso antes?! Não existe melhor lugar pra se resolver os problemas do que debaixo do chuveiro (acho que é pelo fato do papel e da caneta ficarem longe e você ser obrigado a escrever no vidro do box com o sabonete, só pra sua mãe te xingar depois).
Aaaaah o banho, parte mais gostosa do dia, onde tudo flui, o que parecia tão impossível agora tem solução simples (quando eu tiver meu home office com certeza ele será debaixo do chuveiro). Depois de mil e uma ideias você se enrola –renovado- na toalha, transcreve os escritos do box pra um papel (vê se não esquece de limpar o vidro), faz a dancinha da vitória e quando vê já tá pra lá de tarde, você tá morrendo de sono, teve um dia cheio (provavelmente seus problemas não vão sair do lugar), quer saber de uma coisa: "Ah, amanhã eu faço!”.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Eu já havia observado, na verdade eu vivia observando, chegava quase sempre no mesmo horário, me posicionava num lugar onde a visão me era ampla (para que nada escapasse de minhas vistas), colocava os óculos, sem perceber -a princípio-, além dos óculos coloquei um riso no canto da boca (um tanto quanto orgulhoso -admito-, na minha idade existiam certos tipos de “pequenos prazeres” que eu me dava ao luxo de sentir), ser observador da vida não é tarefa fácil e não compete a qualquer um, "haja trabalho de paciência" -pensei comigo-, então peguei minha xícara de café, levei à boca e beberiquei, estava quente, queimei um pouco a língua e um tanto os lábios, mas isso não tinha importância -não nesse momento-, meu olhar estava preso em outros cantos e minha boca queimada não fazia parte desse cenário, logo a ignorei e voltei para o ponto onde estava, o que importava.
As coisas ao meu redor detinham minha completa atenção, como quando um imã atrai o metal ou o cheiro da flor, as abelhas, eu sempre admirei o mundo, toda a sua complexidade, seus códigos, sintonia e caos, a manifestação da vida com todo aquele entusiasmo e imediatismo misturados com euforia e medo que dão um frio na barriga e aperto no coração, ah, isso me fascinava, me deixava comovido e estático, poderia ficar ali por horas, vendo um filme do mundo, eu seria -pelo menos naquele instante- o espectador mais maravilhado, atento aos detalhes mais simples e apaixonantes daquele ato.
Enquanto tomava meu café -agora um pouco mais frio-, continuava a observar, havia um pássaro que espertamente pegava migalhas em cima de uma mesa e voltava para seu canto na árvore, outro mais folgado comia sua migalha ali mesmo, sem se incomodar com quem passava perto, e numa dessas passadas percebi a moça loira, um pouco baixa, meio apressada, livros na mão e um óculos de grau com armação azul, quase esbarrou numa cadeira, na mesma mesa onde havia um casal, provavelmente brigavam, pela forma como gesticulavam um com o outro, e por algumas palavras que eu conseguia ouvir de onde me encontrava. O garçom agilmente passava por entre mesas, cadeiras, pessoas e pássaros, sem dar muita atenção ao que acontecia naquele ambiente, ele trabalhava equilibrando gentilmente a bandeja em sua mão direita enquanto duas meninas no balcão abriam sua lata de suco em meio a risos e o que parecia ser uma conversa animada, mexiam com as mãos, no cabelo e davam outra golada no suco, meu café já estava frio, não me importava.
Vi uma folha cair no chão, vinda de uma árvore próxima e ser pisoteada por alguém num tênis esportivo, estava seca, percebi pelo singelo suspiro que ela deu, logo quando o sol da tarde deu lugar à luz da lua, ainda tímida um pouco à mingua, ofuscada pela luz dos pequenos postes de iluminação fraca, posicionados de forma organizada, eu diria que até estratégica. Um rapaz, sentado com um violão, ou pelo menos algo que parecia, olhou o relógio no pulso, um pouco assustado, levantou-se e foi-se embora, lembrei-me de que já era tarde e também deveria ir, alguém me esperava para o jantar.
Despedir-me e deixar aquele pedaço de mundo era sofrido, mas de uma forma eu consegui meu pedaço de paz, alimentei-me da vida que jorrava sem parar como se pudesse recuperar anos passados, eu colhia o máximo que podia, eu via suas diversas formas quebrando seus ciclos -in-finitos, já não lembrava da boca queimada, não me incomodava com o café que deixei frio na xícara, era apenas eu de frente para o existir, entendendo o sentido do tempo, contemplando as curvas desenhadas no chão (vindas da sombra nas cadeiras), e a senhorinha que contava as moedas do caixa, guardei os óculos dentro da pasta, paguei meu café pouco bebido, olhei ao redor buscando um motivo para ficar e coloquei-me no caminho de casa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Eu não sei falar sobre o que não seja amor, pois amor é tudo e nada -ou nada-, é a flor que nasce enquanto o olho pisca, um vento que passa fazendo cócegas nos cabelos; é pisar na terra quando a chuva cai na cabeça, um breve suspiro num grande momento, um pouco de mim num tanto do mundo; amor é do que sou feito, um enfeite na vida, um confeito no bolo, é tudo ou nada, faz parte de mim, sem amor não tenho mais nada.