Eu já havia observado, na verdade
eu vivia observando, chegava quase sempre no mesmo horário, me posicionava num
lugar onde a visão me era ampla (para que nada escapasse de minhas vistas),
colocava os óculos, sem perceber -a princípio-, além dos óculos coloquei um
riso no canto da boca (um tanto quanto orgulhoso -admito-, na minha idade existiam
certos tipos de “pequenos prazeres” que eu me dava ao luxo de sentir), ser
observador da vida não é tarefa fácil e não compete a qualquer um, "haja
trabalho de paciência" -pensei comigo-, então peguei minha xícara de café,
levei à boca e beberiquei, estava quente, queimei um pouco a língua e um tanto
os lábios, mas isso não tinha importância -não nesse momento-, meu olhar estava
preso em outros cantos e minha boca queimada não fazia parte desse cenário,
logo a ignorei e voltei para o ponto onde estava, o que importava.
As coisas ao meu redor detinham
minha completa atenção, como quando um imã atrai o metal ou o cheiro da flor,
as abelhas, eu sempre admirei o mundo, toda a sua complexidade, seus códigos,
sintonia e caos, a manifestação da vida com todo aquele entusiasmo e
imediatismo misturados com euforia e medo que dão um frio na barriga e aperto
no coração, ah, isso me fascinava, me deixava comovido e estático, poderia
ficar ali por horas, vendo um filme do mundo, eu seria -pelo menos naquele
instante- o espectador mais maravilhado, atento aos detalhes mais simples e
apaixonantes daquele ato.
Enquanto tomava meu café -agora
um pouco mais frio-, continuava a observar, havia um pássaro que espertamente
pegava migalhas em cima de uma mesa e voltava para seu canto na árvore, outro
mais folgado comia sua migalha ali mesmo, sem se incomodar com quem passava
perto, e numa dessas passadas percebi a moça loira, um pouco baixa, meio apressada, livros na mão e um óculos de grau com armação azul, quase esbarrou numa
cadeira, na mesma mesa onde havia um casal, provavelmente brigavam, pela forma
como gesticulavam um com o outro, e por algumas palavras que eu conseguia ouvir
de onde me encontrava. O garçom agilmente passava por entre mesas, cadeiras,
pessoas e pássaros, sem dar muita atenção ao que acontecia naquele ambiente, ele trabalhava equilibrando gentilmente a bandeja em sua mão direita
enquanto duas meninas no balcão abriam sua lata de suco em meio a risos e o que
parecia ser uma conversa animada, mexiam com as mãos, no cabelo e davam outra
golada no suco, meu café já estava frio, não me importava.
Vi uma folha cair no chão, vinda
de uma árvore próxima e ser pisoteada por alguém num tênis esportivo, estava
seca, percebi pelo singelo suspiro que ela deu, logo quando o sol da tarde deu
lugar à luz da lua, ainda tímida um pouco à mingua, ofuscada pela luz dos
pequenos postes de iluminação fraca, posicionados de forma organizada, eu diria
que até estratégica. Um rapaz, sentado com um violão, ou pelo menos algo que
parecia, olhou o relógio no pulso, um pouco assustado, levantou-se e foi-se
embora, lembrei-me de que já era tarde e também deveria ir, alguém me esperava
para o jantar.
Despedir-me e deixar aquele
pedaço de mundo era sofrido, mas de uma forma eu consegui meu pedaço de paz,
alimentei-me da vida que jorrava sem parar como se pudesse recuperar anos passados, eu colhia o máximo que podia, eu via suas diversas formas quebrando seus ciclos -in-finitos, já não lembrava da boca queimada, não me incomodava
com o café que deixei frio na xícara, era apenas eu de frente para o existir,
entendendo o sentido do tempo, contemplando as curvas desenhadas no chão
(vindas da sombra nas cadeiras), e a senhorinha que contava as moedas do caixa,
guardei os óculos dentro da pasta, paguei meu café pouco bebido, olhei ao redor
buscando um motivo para ficar e coloquei-me no caminho de casa.
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