Era verão, e numa fração de
segundos desperta pelo "nada", ou melhor dizendo o contrário,
completamente imersa em meus pensamentos, eu comecei a me perguntar mentalmente
se naquele lugar não seria sempre verão, o sol era sempre muito forte, o vento
era um sopro quente e abafado, era possível queimar-se na sombra e qualquer ar-condicionado
era insuficiente. Mas logo o calor foi esquecido, e então eu me lembrei porque
estava ali, tornei a esquecer, nunca fui fã de assuntos sérios e de coisas sem
graça, já estava velha para me preocupar com tão pouco. Passei a tarde ali,
apoiada naquela janela de hotel, vendo a menina bonita em seu vestido amarelo
florido beijar na boca o moço no cais do porto, eu imaginava que talvez ele
chegasse de uma longa viagem, pelo ardor dos beijos e abraços havia ficado
muito tempo longe da amada. Pensei comigo que daria uma linda história de amor
se não fosse clichê, simples e contada por uma velha. Transportei-me para o
passado, eu conseguia me lembrar dessa mesma paisagem, com menos prédios,
carros e turistas, quanto tempo se passou...
Naquela época amar era uma coisa
importante, tinha um valor imenso, e acreditava-se que era a razão pela qual o
ser humano vivia. Não se tinha vergonha por estar apaixonado ou demonstrar
sentimentos, pessoas mandavam flores, escreviam cartas e faziam serenatas, mas
o tempo passou, até para o amor.
A vida naquele lugar era simples
e o verão era eterno, meu pai trabalhava no porto, tínhamos um barco, ele e meu
irmão eram pescadores, eu e minha mãe cuidávamos da casa, fazíamos redes e ela
me deixava ir à escola, o que era raro na época, quase não se via filhas de
pescadores frequentando a escola, mas meus pais acreditavam que assim eu teria
melhores oportunidades, poderia ter um futuro melhor, infelizmente o negócio do
peixe já não era como antes, os homens saiam de casa com esperança e voltavam
de redes vazias.
Eu frequentava as aulas pela
manhã num colégio de freiras, graças a uma tia eu não precisava pagar a
mensalidade e eu trabalhava na secretaria para pagar meus materiais, aquilo era
meu pedaço de paraíso na terra, não conseguia imaginar minha vida fora daquele
lugar, eu amava ler, escrever, ouvir os saraus de poesias, os concertos da
orquestra, era tudo um sonho.
Então eu aprendi a amar, eu via o
amor nos livros, as palavras desenhavam o rosto do amado no meu coração, as
canções de amor embalavam meus sonhos mais bonitos e assim eu passava meus dias
imaginando quando minha hora de partilhar meu amor com alguém chegaria.
Não tardou muito e eu me
apaixonei, louca e perdidamente, já havia bebido da fonte do amor, estava
anestesiada por tudo que tinha lido e ouvido, todos aqueles contos, poemas,
canções; eu estava feliz. O rapaz também era filho de pescador e assim como meu
irmão, ajudava o pai nas viagens e não tinha tempo de estudar. Ele não conhecia
as palavras, o mundo dos livros, os romances, mas conhecia o amor pude ver em
seus olhos, na primeira vez que o vi.
Nossas famílias se tornaram
amigas por causa do peixe, e logo nos tornamos amigos também e quando ele não
estava no mar podíamos conversar, ele me contava sobre os perigos da vida na
pesca e eu lhe contava sobre as belezas que lia nos livros. Algum tempo se
passou até ele tomar coragem e me contar sobre seus sentimentos, disse que
infelizmente não poderia me dar um futuro farto e cheio de riquezas, mas que me
amava mais que tudo e que queria cuidar de mim, eu chorei de alegria, não eram
palavras chiques ou frases rimadas, mas eram reais, eram de coração e eram
lindas. No mesmo dia ele pediu permissão ao meu pai para que pudéssemos namorar
e prometeu que trabalharia duro para que pudéssemos nos casar. Meu pai mesmo
sendo um homem bravo consentiu o namoro, ele sabia que eu amava aquele filho de
pescador, sabia que eu olhava aquele rapaz assim como ele olhava minha mãe,
havia ternura, ele sabia.
Passaram-se dois anos, e esses
com certeza foram os dois anos mais felizes da minha vida, estávamos noivos,
nos casaríamos em breve, eu sonhava com este dia, eu contava as horas para que
chegasse, eu esperava ansiosa a cada volta do mar, e derramava lágrimas cada
vez que ele tinha que partir e foi numa dessas partidas, numa tempestade
monstruosa que o mar o tirou de mim, o arrancou dos meus abraços e dos meus
sonhos e eu tive vontade de ir atrás dele, por dias esperei que ele voltasse,
que ele tivesse conseguido se safar desse desastre, mas ele nunca mais
apareceu, eu gritei com o mar, eu amaldiçoei cada tempestade, cada onda e cada
gota de água, eu quis morrer, porque a vida não fazia mais sentido, porque tudo
havia sido destruído e de mim só restara a carcaça.
Meus pais me mandaram para morar
com uma tia, num lugar longe do mar, diziam que eu iria melhorar, que o tempo
me ajudaria a esquecer, mas eu não queria esquecer, lutei para ficar, porém, no
fundo sabia que deveria partir. Depois de algumas semanas em luto ainda
chorando a morte do meu amor, eu fui levada daquele lugar, comigo levava
lembranças e uma grande dor no coração.
Morei muitos anos com minha tia,
lá pude estudar, me ocupava com várias tarefas, ajudava minhas primas mais
novas com os estudos, afazeres da casa, tinha aulas de piano, e com o tempo a
dor diminuiu, eu ainda chorava durante a noite, antes de dormir, mas era um
segredo meu, uma parte do passado que eu guardava só pra mim. Passados alguns
anos, eu me casei, tive filhos, netos, construí um lar, vivi uma vida tranquila
e confortável, nunca mais voltei à minha cidade natal, enterrei o passado, me
permiti ser feliz do jeito que desse, com o que tivesse sobrado de mim, nunca
amei de novo, não daquela forma, intensa e pura, mas encontrei alguém com quem
pude compartilhar as alegrias da vida, da família, alguém que com o tempo
aprendi a amar e ao seu lado envelheci e estive até o fim de seus dias.
Agora depois de décadas estou de
volta ao lugar que nasci e cresci, lugar que vivi os melhores e piores momentos
da minha vida, onde me apaixonei e perdi minha metade, neste momento olhando o
porto eu sinto que cumpri meu papel nessa existência, que fiz meu dever e agora
posso descansar, que meus fantasmas fiquem pra trás, que eu seja livre, que em
algum lugar eu encontre novamente o meu amor e que possamos viver o resto da
eternidade juntos.