segunda-feira, 11 de maio de 2015

Neste momento, sentado em minha escrivaninha velha, num apartamento igualmente velho e vazio, numa cidade fria, úmida e cheirando a mofo, divagando sobre a vida desgraçadamente cômica que me permiti hora ser protagonista, hora ser observador, em meio a uma epifania pretensiosamente imbecil me permiti concluir certas observações que já estavam por me assombrar tempos atrás. A vida parece um clichê repetitivo, um ciclo vicioso do qual nos submetemos com a falsa esperança de que um dia quebraremos com os costumes que nos cercam e então domaremos o nosso próprio destino e seremos capazes de construir algo diferente dos demais. O que acontece de fato quando se chega numa certa idade é perceber que nada mudou, que o tal clichê é decepcionantemente o enredo da nossa vida de que não podemos fugir e que tentar romper com qualquer tipo de contrato social que seja, te torna amargo, rabugento e só funciona quando se trata de romances baratos de bancas de jornal. Eu sei bem disso, durante quarenta e alguns anos da minha vida, acentuada pela barba mal aparada e agora grisalha, eu vivi sonhando com o dia em que sairia desse massacre da vida cotidiana e me libertaria da cadeia alimentar social. Pois bem, cá estou, caminhando para o auge da meia-idade, com uma carreira jornalística frustrada e medíocre numa cidade grande onde todos parecem solitários, cujos ideais políticos libertários já desapareceram, junto com dois casamentos e filhos que não vi crescer. Mais um clichê incontrolável ao qual me submeti forçadamente foi o de afogar minhas mágoas na bebida, o que me deixa menos queixoso é que como um bom jornalista que se presa, na minha idade, me encaixo no perfil costumeiro pelo qual orgulhosamente lutei muito, só pelo status de estar no fundo do poço. Diferentemente das profissões sérias, embebedar-me todos os dias e matar meus pulmões enquanto como um cigarro atrás do outro é completamente aceitável, quase aplaudível, como se fosse um pré-requisito para jornalistas quarentões, quando não é isso, sou obrigado a enfrentar um trânsito do cão, bater cartão e sentar numa sala onde nem mesmo sei como se desliga o maldito do ar-condicionado, finjo que trabalho, às vezes até trabalho, não que eu não goste do meu emprego, ela paga minhas contas, da casa, do bar, do motel e do puteiro, ele é ótimo, não dá pra reclamar. Fora a estupidez generalizada que me tira do sério, os pseudo cults e os investidores burros, não posso ser completamente hipócrita, estou aqui, com o traseiro pregado na cadeira acolchoada, reclamando da vida ridícula que tenho, bebendo feito um louco e prosseguindo com a tentativa de ter um câncer no pulmão, eu não vou fazer algo pra mudar, não nessa altura da vida, é mais fácil reclamar, sonhar ou praguejar sobre o que já existe, mas isso é um segredo que guardo, no qual volto todas as noites como se fosse um refúgio, enquanto olho pela janela, a paisagem cinza que me cerca.
Querida Jane, eu não tenho mais tempo, mesmo que os dias continuem tendo vinte e quatro horas e a semana sete dias. Eu continuo intacta, se é o que quer saber, só não procure dentro das gavetas, elas continuam bagunçadas, mas é normal, nunca consegui arrumá-las mesmo. Essa semana eu errei o caminho de casa, fiquei dando voltas, me perdi por um bom tempo e ainda não sei como cheguei direito, acho que choveu de noite e em várias outras partes do dia, quase choveu quando não podia. O espelho quebrou, é, perdi a conta do azar, as caixas na sala, estão lá, esperando que eu faça alguma coisa, mas eu não caibo nelas, eu tentei, foi ruim e eu me senti triste por isso. Acho que o inverno chegou, dentro de casa eu sinto o coração batendo quente, a pulsação na ponta dos dedos, na rua, o vento gelado endurece meus membros e me faz tremer. Percebi que caça-palavras é uma maldição, eu perco a cabeça e rasgo o jornal, sem antes ter lido a notícia na página de trás. Comprei a passagem pra casa, só ida, convencional, espero ser suficiente, espero. As gêmeas vieram me visitar, eu fiquei no meio, servi suco e observei elas discutindo, sem tomar partido, claro. Peguei meu casaco, tomei um café, paguei as contas, fiz as compras, li e fui dormir.