Querida Jane, eu não tenho mais tempo, mesmo que os dias continuem tendo vinte e quatro horas e a semana sete dias. Eu continuo intacta, se é o que quer saber, só não procure dentro das gavetas, elas continuam bagunçadas, mas é normal, nunca consegui arrumá-las mesmo. Essa semana eu errei o caminho de casa, fiquei dando voltas, me perdi por um bom tempo e ainda não sei como cheguei direito, acho que choveu de noite e em várias outras partes do dia, quase choveu quando não podia. O espelho quebrou, é, perdi a conta do azar, as caixas na sala, estão lá, esperando que eu faça alguma coisa, mas eu não caibo nelas, eu tentei, foi ruim e eu me senti triste por isso. Acho que o inverno chegou, dentro de casa eu sinto o coração batendo quente, a pulsação na ponta dos dedos, na rua, o vento gelado endurece meus membros e me faz tremer. Percebi que caça-palavras é uma maldição, eu perco a cabeça e rasgo o jornal, sem antes ter lido a notícia na página de trás. Comprei a passagem pra casa, só ida, convencional, espero ser suficiente, espero. As gêmeas vieram me visitar, eu fiquei no meio, servi suco e observei elas discutindo, sem tomar partido, claro. Peguei meu casaco, tomei um café, paguei as contas, fiz as compras, li e fui dormir.
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